quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Kiz Zarar


Impossível falar de Kiz Zarar sem citar seu pai - Zalim Zarar...

Em 332 a.C.; Alexandre o Grande conquistou o Egito. Na verdade, os egípcios viam os invasores macedônios como "libertadores" dos persas; e por isso colaboraram para uma transição tranquila...

Alexandre Magno inteligentemente entregou a administração egípcia ao seu General Ptolomeu I - que fundou um império poderoso - mantendo o esplendor econômico e cultural do Antigo Egito; mas promovendo grandes reformas administrativas (aos moldes gregos).

Neste período sob controle da Dinastia Ptolomaica, muitos tratados comerciais foram firmados com Roma (principalmente voltados à importação de grãos egípcios); e a cooperação política e militar também resultaram na aproximação entre os povos do ocidente e oriente...

Em 170 a.C.; Ptolomeu VIII assumiu o trono do Egito, após a morte de seu pai Ptolomeu VII (envenenado durante um jantar em família). Mas diferentemente de seus antepassados (considerados heróis pelo povo egípcio); o oitavo regente ficou marcado pela crueldade e ambições desmedidas; sendo facilmente manipulado por seus conselheiros...

Dentre eles Zalim Zarar...


Um Vizir equivaleria à soma dos atuais cargos de "ministro" e "conselheiro" na antiga Pérsia; e mesmo durante a Dinastia Ptolomaica, certas famílias aristocráticas egípcias permaneceram gozando dos privilégios decorrentes do título de "Vizir" - como foi o caso da família Zarar...

Enquanto os regentes eram rodeados de pompa (tornando-se seres misteriosos e quase "divinos"); era o Vizir quem cumpria as ordens do soberano, mantendo os monarcas distantes da execução de tarefas administrativas. Ao mesmo tempo, o Vizir assumia a responsabilidade dos atos de governo e preservava a reputação do Califa ou Sultão (que era o governante temporal e espiritual de seu povo).

Zalim era um homem sério, imaculadamente vestido com trajes nobres, cuja educação e profundo conhecimento sobre culturas estrangeiras tornaram-no o "diplomata perfeito". Ele movia-se de modo rápido e eficiente, sempre mantendo sua voz num tom cordial e controlado. Qualquer tentativa de irritá-lo não encontrava resposta. Na corte, era comum sussurrarem sua alcunha: "o homem que não sabia sorrir". Mas isto não era uma verdade absoluta...

Fora do ambiente de trabalho, era um marido apaixonado e um pai dedicado à sua única filha - a pequena Kiz (na época com apenas dois anos de vida).

No ano de 166 a.C.; o regente Ptolomeu VIII foi convidado para uma grande festa em Roma (comemorando a unificação política entre Egito, Macedônia, Grécia e Constantinopla). E é claro que o Vizir Zalim Zarar foi obrigado a integrar a comitiva real egípcia (ainda que contrariado - dada sua natureza estoica e avessa às grandes celebrações).

Foram dois meses longe de casa em pleno verão romano...

Numa linda noite de lua cheia, os egípcios foram convidados pelo Senador Tiberius Sempronius Gracchus (que em 133 a.C. seria eleito Tribuno - equivalente ao cargo de "Presidente" de Roma); a conhecer o principal Templo de Baco - administrado pelo Sumo-Sacerdote Petrus Maximus...

Zalim já estava desconfortável durante o banquete (servido por escravos despidos, onde nobres romanos obesos comiam e bebiam excessivamente); mas ficou enojado quando começaram os primeiros estupros (inclusive de crianças de ambos os sexos); torturas e castigos corporais intensos; exibicionismo despudorado; fetichismo extremo; homossexualismo; zoofilia e até necrofilia; sendo aplaudidos por convidados ávidos de prazeres carnais (dançando e soltando gritos estridentes); ao som da música hipnótica e constante...

Ao se ver cercado por cinco Menades (bailarinas) seminuas (vestidas com peles de tigre ou pantera); com os cabelos soltos e desgrenhados; gritando EVOI! EVOI! EVOI!; Zalim Zarar não conseguiu se controlar - e pela primeira vez na vida, deixou sua postura serena e bradou impropérios em árabe e em latim, chamando os seus anfitriões de "degenerados e amaldiçoados"!

Ele tentou fugir daquele Templo onde ocorriam as mais grotescas vulgaridades...

Mas sua visão ficou turva...

E Zalim não conseguiu se lembrar de mais nada...

Acordou três noites depois, em seus aposentos, já transformado em um Malkav da 6ª Geração...

Zarar não conhecia absolutamente nada sobre vampiros...

Ele só sentia fome... Uma fome incontrolável... E que nenhum alimento conseguia saciar...

Seguiu sozinho em direção do Templo de Baco, em busca de alguma explicação sobre sua doença...

Mas mesmo o Sumo-Sacerdote Petrus Maximus desconhecia a natureza cainita; e obviamente estava embriagado demais para se lembrar do que havia ocorrido na celebração de três noites atrás...

Conforme os ânimos foram se acirrando, a "Besta" dominou as ações do normalmente controlado Zalim; e tomado pelo Frenesi, cravou seus dentes na jugular de seu anfitrião...

A carne fresca e o sangue quente que jorrava pela sua garganta finalmente saciaram sua fome!

Porém, passada a fúria, o egípcio ficou horrorizado ao perceber que estava abraçado a um cadáver pálido, com o pescoço dilacerado, e ainda sentia aquele gosto em sua boca...

E pior: muitos frequentadores do Templo estavam ao redor, aplaudindo efusivamente seu ato inumano!

Isto enojou-o de tal forma, que Zalim Zarar acabou vomitando parte do sangue ingerido sobre o rosto de sua vítima... antes de fugir correndo pelas ruas de pedra da Cidade Eterna!

As poucas gotas que chegaram à boca de Petrus foram suficientes para completar o ciclo...

E duas noites depois, durante seu funeral, renascia Pagliacci!

Temendo perder o controle de suas faculdades mentais para a "Besta"; Zalim Zarar tornou-se obcecado em descobrir uma cura para sua doença...

Lentamente afastou-se de seus compromissos profissionais e relacionamentos pessoais (inclusive familiares); e por vinte anos, peregrinou pelos maiores centros culturais do mundo, em busca de respostas sobre a criatura que havia se tornado.

De volta à Alexandria (capital do Egito), descobriu que sua esposa já havia falecido; e sua linda filha (Kiz Zarar) estava noiva de Ptolomeu IX (filho mais velho do regente Ptolomeu VIII e o próximo na linha sucessória). Mas justamente por conhecer profundamente o longo histórico de traições incestuosas desta dinastia, Zalim impediu o casamento de sua preciosa filha com o herdeiro real...

Obviamente, pai e filha foram considerados traidores... E foram obrigados a se refugiar em Lefkosia (atual Nicósia), capital da ilha de Chipre; onde os Zarar tinham bons e confiáveis amigos...

Dada a posição geográfica privilegiada de sua nova morada, Zalim manteve contatos com fenícios, egípcios, assírios, persas, árabes, gregos e romanos; facilitando seus estudos sobre os cainitas e desenvolvendo novas técnicas e aplicações de seus poderes...

Mas nada comparado ao "Elixir"!

Tratava-se de uma poção secreta, que utiliza inúmeras substâncias químicas, diluídas na própria vitae de Zalim Zarar; capaz de curar toda e qualquer doença ou ferimento humano (inclusive retardando os efeitos do envelhecimento - o que garantia uma possível imortalidade); e ainda potencializava os atributos físicos, sociais e mentais; equiparando-os aos alcançados por Cainitas da 9ª Geração!

Foram anos de pesquisas e desenvolvimento da fórmula do Elixir; até que Zalim estivesse seguro e confiante ao fornecê-lo para sua amada filha Kiz. A bela morena, de olhos verdes e corpo escultural, tornou-se ainda mais irresistível; preservando sua pureza e seus encantos por séculos...

A cada dez anos, os Zarar realizavam um grande torneio, onde eram aceitos desde honrados guerreiros até traiçoeiros criminosos. Tratava-se de combates mortais, em grupo ou individuais, até que os cinco melhores (leia-se: sobreviventes) fossem escolhidos. Eles eram regiamente recompensados por seu empenho nos "jogos"; e, se quisessem, poderiam desafiar um dos Otrok para assumir seu posto...

Otrok era o nome dado aos "seguranças" ou "guarda-costas" da família Zarar. Servos absolutamente leais, além de excelentes combatentes, que recebiam verdadeiras fortunas por seus préstimos; e ainda ganhavam doses do Elixir - tornando-os ainda mais poderosos. Obviamente, nenhum Otrok pretendia deixar o cargo "confortável" e muito menos parar de tomar o Elixir (que os fortalecia e os mantinha imortais)... Mas outros guerreiros estavam dispostos a tudo para se tornar o próximo Otrok!

Zalim Zarar amava sua filha Kiz acima de todas as outras coisas... Por isso contratou os melhores Otrok's para protegê-la; e também desenvolveu o Elixir (tornando-a imortal; sem transmitir-lhe a maldição de Caim). Mas ele ainda não estava satisfeito...

Era preciso buscar sua própria salvação!

Em suas intermináveis pesquisas sobre a natureza vampírica; Zalim ouviu falar da Golconda (estado em que o cainita "supera" a Besta e elimina a Fome; salvando sua alma da danação eterna). Esta tornou-se sua obsessão pelos séculos seguintes...

Por volta do ano de 30 d.C., Zalim ouviu falar de um certo peregrino judeu, que vagava pela Palestina realizando milagres. De início, considerou uma simples "bobagem supersticiosa" (tão comum nestes tempos); mas os relatos eram cada vez mais frequentes, ricos em detalhes, e contavam sobre como ele havia trazido mortos de volta à vida; alimentado multidões com poucos pães e peixes; transformado água em vinho e curado todos os tipos de doença pela fé...

Mesmo não acreditando nestas histórias, o egípcio aproveitou uma viagem de negócios que faria à Galileia, para tentar conhecer este "milagreiro". Em Kapharnaoum (grande cidade litorânea ao norte do Mar da Galileia); Zalim ouviu que o tal "Jesus de Nazaré" estava seguindo para a vila de Naim (aproximadamente quatro quilômetros ao sul do Monte Tabor); e que provavelmente chegaria lá na próxima noite. Seria uma cavalgada de algumas horas... mas justificada pela curiosidade em conhecer o famoso peregrino.

Naim tinha aproximadamente 500 habitantes, com uma única estalagem rústica. Zalim viajou acompanhado de dois Otrok's; e chegaram ao local durante a madrugada. Foram recebidos pelo estalageiro (surpreso por três estrangeiros visitando aquele "fim de mundo" na calada da noite); mas o ouro cipriota evitou muitas perguntas indiscretas...

Ao entardecer, quando os últimos raios de sol tingiam de vermelho as encostas do Monte Tabor; o barulho da multidão nas ruas de Naim acordou Zalim Zarar. Segundo um dos Otrok, uma jovem viúva estava chorando a morte do único filho, enquanto os moradores carregavam a esquife, num cortejo fúnebre que mobilizou toda a vila...

Impossibilitado de sair dos seus aposentos, o egípcio assistia calado à triste procissão...

Quando um homem usando mantos brancos, barba e cabelos cumpridos, se aproxima da mulher...

Eles trocam algumas palavras... e o Jesus bradou:

- MOÇO, EU TE ORDENO: LEVANTA-TE!

No mesmo instante, o cadáver abriu os olhos e se levantou... perplexo e assustado...

Zalim, assim como todos os presentes no cortejo, ficaram paralisados!

A viúva abraçou o filho... e a comoção foi imensa! Lágrimas e gritos tomaram as ruas, e o velório transformou-se numa festa sem precedentes na pequena vila de Naim...

Tão logo escureceu, Zalim correu para encontrar o peregrino... mas Jesus já havia partido!

E ninguém ali sabia qual direção ele seguiu...

Ao voltar para Lefkosia; Zalim continuava impressionado com o milagre que havia presenciado. Passou noites em claro, em sua biblioteca e laboratório, pensando em alguma explicação "racional" para o feito - inclusive suspeitando que havia testemunhado um simples "truque"; mas nada satisfazia plenamente sua curiosidade e obsessão pelo conhecimento.

No ano seguinte, os relatos sobre novos milagres continuavam a chegar aos ouvidos de Zalim...

E convencido da veracidade deles, o egípcio decidiu voltar à Galileia - na esperança de que Jesus pudesse "curá-lo" do vampirismo...

Zalim e dois Otrok's partiram rumo ao continente e seguiram os passos de Cristo...

Mas é claro que as jornadas só podiam ser realizadas durante a noite; enquanto Jesus e seus discípulos seguiam seu caminho durante o dia - resultando em inúmeros desencontros nos meses seguintes...

Em 33 d.C.; o egípcio finalmente alcançou o nazareno em Jerusalém!

Mas foi numa noite de sexta-feira...

E Jesus já estava morto - ainda pregado na cruz...

Zalim Zarar, inconsolável, voltou para a ilha de Chipre nesta mesma noite...

E nem testemunhou a sua ressurreição...

Nas décadas seguintes, os cristãos passaram a ser perseguidos das mais variadas formas. Eram torturados publicamente, lançados ao furor de animais violentos, empalados, crucificados e até mesmo queimados vivos. Para redimir e orar pelos seus mártires, os cristãos passaram a enterrá-los nas chamadas "catacumbas". Estas funcionavam como túmulos subterrâneos onde os cristãos poderiam fugir dos soldados romanos, entoarem cânticos e pintar imagens que manifestassem sua fé.

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